" da estante

sexta-feira, 2 de março de 2018

escreveria uma carta...


Eu te escreveria
uma carta
mas ela não
diria
o que preciso
contar.


Conto
com a covardia
de nessa manhã
tão quente
deixar
o café esfriar
de tanto
pensar
de nada escrever.

Mas, talvez
encontre
teu silêncio
em cada folha
rabisco
verdade
ou mentira
que eu pintar.

Eu não
te escreveria
apenas
por educação
mas
pela covardia
de não
saber
falar.

Quem ousaria lhe chamar de minha?


avaliado e premiado como melhor poema pela Secretaria de Cultura de Colônia


A cidade na primeira pessoa:

Eu, cidade
que me guardo apenas eu
que aguardo sustos nas esquinas
que abraço pouco
e curtamente
minhas meninas
que não tenho muito
para atracar no porto
mas que sou suficiente
para abarcar o eu.

Sim, sufoco
e o sufoco que me apraz
dentro de mim
expande meus ares
no desconforto de ser
apenas eu.

Guardo em meus sentidos
guardados perdidos
na parva história em que me rondam
em cada conto diferente
e, de memória fraca
sei pouco de mim
lembro-me pouco
e me restei com restos
com resquícios de uma história
que escavam
e escavam
até me encontrar.

Eu, cidade
faço-me história
do amanhecer
ao me “ponhar”.

Existe poesia sem rima?
Estou, sou, para provar.

A rima que raia no sol de meio-dia
não é a mesma que desponta
ao final.

O céu que me cobre aos ventos
é o mesmo que acompanha meus filhos
por todo lugar.

Eu, pouco sabidamente eu
pura e simplesmente eu
recebo de volta os meus
como se não tivera passado
o tempo de se fazer só
e não me faço
se me componho e me desfaço
num passo
imperceptível
de avanço
só quem me conhece bem
saberia que detenho um povo
sob meus braços
e que o avanço se faz
do seu caminhar.

O rio que me banha
já não têm traços
o filho que me barganha
eu não rechaço
para os que vão e vêm
tenho abertos braços
apesar de os abraços
não dizerem sim.

E, mesmo assim
continuo eu
pouco sabidamente eu
pura e simplesmente eu
uma colônia de sentidos
e argumentos
para ser menos breu.

Pouco sei da Leopoldina
do Pedro primeiro
segundo ou terceiro
e pouco me cabe saber
mas apesar dos pesares
dos ventos que me vertem
sem mares
das histórias que fazem
menos e mais
da primeira
da segunda
ou da terceira pessoa
eu continuo
e continuo eu.

sábado, 13 de janeiro de 2018

o que é de se esperar

Percorro a casa várias vezes 
sem saber onde quero chegar.
E não chego,
o que é de se esperar.

Os tempos últimos estão diferentes.
Não sei acompanhar.
Caminhos desconhecidos,
não consigo me parar.
Tenho medo da sombra que me assombra
na parede.
Tenho medo do assombro que me vem,
e da sede.
Seca lábios.
água não,
café.
Estômago não suporta 
um único canapé.
Café a seco,
seco a garrafa
arrasto o pó
pelo pé.

"Estruture o texto para chamar de poesia"
diz a consciência, a um lance
de materializar-se em boa-fé.
Não tem estrutura.
Não tenho estrutura.
Respinga indecisão
como acupuntura 
pela pele pura 
que cura 
à contrafé. 

Percorro a casa várias vezes 
sem saber onde quero chegar.
E não chego,
continuo a caminhar.

para preencher um lado só


Há de ser e há de se saber ser.
Há de sentir e há de não saber o que sente.
Desde que mundo é mundo.
Mudo.
Desde que mundo é só.
E só.
Desde que passo um passo.
Impasse.
Desde que passe um só.
É estreita a viela.
Redundante.
Desde que sinto um nó.
Nódoa grita.
Silêncio entala.
Aperta o peito com uma mão só.
Forte.
Una. Divisível.
Partida.
Mil pedaços.
Há de não saber o que se é.
Perdido.
Partido.
Foi-se o elo invisível, intangível.
Foi-se.
A foice desceu sem dó.
Perdida
e só.
Desde que mundo é mundo.
Mudo.
Desde que tudo é mudo.
Grita no espaço entre o silêncio
e a morada do ruído.
Ao ouvido, um sino.
Ao sentido, sentindo.
Ao adeus, meu deus!
Sem dó.
Volta ao status quo.
E só, é só, sem piedade
e sem dó.
No poema em que tudo é mudo
para preencher um lado só.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

nos dias de hoje, nada assombra



para a Leão


Nos dias de hoje, tudo me assombra.
Estou escrevendo sem revisar ou reprimir trechos desnecessários. Estou em um momento em que penso que a grande maioria das coisas são desnecessárias então que diferença faz este trecho ou aquele?
De uns tempos pra cá me sinto cada vez mais enjoada com tudo ao redor e, repare bem, isso não é um desabafo. Não sei o que é, ora, e não sou obrigada a saber. Talvez, você. Mas você não sabe. É bom não saber.
Há um rapaz que conheço pouco e há pouco tempo, e ele fala comigo todos os dias. Bom conversar com gente nova, é verdade (embora nem sempre), mas até esses desafogos passam logo. O enjoo volta com força e fica difícil não imaginar que tudo é um tanto desnecessário.
É triste explicar um poema, lembra? Hilda Hilst quem disse. Nem poesia escrevo mais.
Poemas me lembram que posso estar condenada à esperança. Será mesmo possível estarmos todos condenados à ela por mais pessimistas que sejamos? Será que estaríamos mesmo acreditando que algo dará certo? Porque se você pensar comigo direitinho (essa mania desgarrada de utilizar palavras no diminutivo na ilusão de que a afetação será menor - doce ilusão) vai se dar conta de que nada dá certo. Nem o dinheiro que cai na sua conta no fim do mês e que você se considera merecedor dele porque trabalhou duro ou titubeou em algum ofício medíocre como o cotidiano de quem vive mediocremente? Ou porque - por alguma razão que desconheço - você é alguém otimista e que acredita que mudará o mundo no dia em que acordar e buzuntar seu pé direito no carpete sujo e frio do lugar em que você mora. Ou mesmo porque você pode ter algum gosto pela escrita e acredita ter talento quando na verdade essa é a única coisa que você sabe fazer sem que tenha de ser avaliado por isso - e mesmo isso é uma parva ilusão - o que mostra que não é talento o que você tem mas medo de ser avaliado e descobrir, num dia endiabradamente ensolarado, que não tem talento e menos ainda a sapiência de que se acha detentor pelo simples fato de saber destrinchar palavras no papel.

Uma amiga a quem tenho muito apreço me diria:
Você é muito pessimista. Precisa mudar isso.
— Mas caramba! E se ninguém me condenasse à esperança? Quem mal teria que o bem não cobriria? — eu a responderia.

Ela não entende que é tanta vontade de tudo que chega a doer o todo, mas que no fim tudo volta a ser como é.
 E se todas as mentiras que encobrem por um tempo a verdade libertassem todos os sorrisos? Se as lágrimas tivessem um gosto doce então seria mais delicioso chorar? — eu a perguntaria — Essa auto-insatisfação é tão triste e certa que só em pensar na vida satisfeita dá vontade de dar pulos, de cerrar os dentes até ranger e ensurdecer os gritos que outrora foram amargamente abafados.

É de se perguntar, infelizmente, se será o instinto que mente junto às palavras. As que fogem. Que se escondem. Que se dispersam. Que se atrapalham. Que se encontram. Assim, ponto a ponto. Ortograficamente erradas.

O pior é que sempre se aprende, mesmo sem querer.

E essa infâmia dá a esperança, ternamente e de graça.
E não tem graça.
Aprisiona o pensamento ao acreditar que todo dia pode ser diferente
e hoje se acorda feliz, noutro infelizmente.
E para tantas perguntas: interrogações.
Rasas indagações que cavam qualquer ser a ceder.
A água pura mata a sede que se dobra ao perecer.
Saúde ao futuro que instiga responder!

E onde está a água pura dessa fonte de saber
que neste dia eu me assombro
e amanhã será você?

E olha eu aqui de novo e ainda no conto de carocha que é a poesia. Olha que mediocridade essa minha. Mas não somos nós assim? Que diferença faz o que você pensa disso e o que penso eu de mim?

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

repare bem no que não digo



para Wil

Na agonia de não ter para quem escrever, escrevo para você. Gosto de escrever cartas que nunca irei enviar. Gostaria de ter disposição para enviar cartas e não só para escrevê-las. Escrever assim me dá a sensação de libertação mas também aprisiona sem sentido pois quem lê nunca terá certeza se é sobre si. Bom, espero que tenhas essa certeza, Wil, pelo menos pelos próximos instantes.

Uma das melhores coisas em escrever sobre pessoas que te cercam é imaginá-las lendo e se perguntando se aquele texto é sobre elas. Não é uma espécie de brincadeira. Minto, talvez seja. No meu tempo de menina adorava escrever sobre o que me acontecia. Não era como escrever num diário, era mais como dissertar sobre os acontecimentos e as pessoas por quem estava apaixonada no momento. Na primeira, na segunda ou na terceira pessoa. Sempre com começo e meio. Nunca com fim.

Hoje em dia, escrevo mais bobagem, até sobre o café que deixei queimar na chaleira. Quem ainda faz café na chaleira? Eu faço. E gosto. E não trocarei o termo porque é chaleira mesmo, minha vó ensinou assim. Mas o fato é que temo estar me bestificando. Temo que o tempo me bestifique até o momento em que não terei o menor tesão em mistificar ou intelectualizar os textos. Estão cada vez mais banais mas sinto que cada vez mais... Não sei a palavra certa. Estão cada vez mais sobre o bê a bá, cê a cá, dê a dá... Dane-se. Não você, claro.

Semana passada estive numa crise de mim - sim, porque não sei se é crise de identidade da casa dos vinte, se posso chamar de crise que o capitalismo traz à medida que o tempo passa, se posso chamar de crise após cada leitura de Nietzsche, se posso chamar de crise qualquer leitura de aulas de Foucault -, não sabia se ouvia música ou se lia um livro. E olhe que tenho incontáveis livros para ler e concluir trabalhos pendentes! 

Repare bem no que não digo. Li isso em algum lugar, mas isso não vem ao caso. Na verdade, repare que o tempo vai nos fazendo ficar mais propensos ao tédio e não que ache ruim, às vezes gosto de estar entediada mas o problema é o que sai desse tédio. Esse bê a bá descompassado. Essa distopia desenfreada da realidade. Talvez você me saiba dizer, Wil. Talvez você entenda melhor que eu. Repare bem no que não digo. Até agora não disse nada. 

Então, repare no que digo. Não carregar os textos de melancolia seria sinal de amadurecimento? Certamente Schopenhauer discordaria e não quero aqui me elevar a ele, longe de mim, embora adore uma fossa. Que amadurecimento podre seria, hein? Eu já nem sei mais o que dizer aqui, meu descontentamento vai a mil e eu só queria que você me dissesse algo sobre essas banalidades que nos fazem despender tempo descrevendo-as e desentranhando algum suspiro de sentido desse cotidiano absurdo que nos acompanha dias afora.  

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

1º - não namore uma escritora

Já li diversos textos curtos sobre os porquês de não ser tão indicado namorar uma escritora. Concordo com alguns, discordo de outros. Mas ei de apreender os pontos que encontro em comum. 

Não, namorar alguém que escreve não é uma tarefa fácil, e irei contar-lhe o(s) porquê(s). É importante que você saiba que se não for capaz de compreender um coração sensível, certamente não faz jus a ele. Entenda, ser sensível não implica em ser frágil. Uma escritora sabe bem das cargas que leva por dentro e não há nada que a faz mais forte do que suas dores e alegrias. Se você não consegue compreender que sua necessidade de estar sozinha, seja com uma caneta e um papel ou um teclado onde possa descarregar sua sensibilidade, se não for esperto para saber separar seus momentos e tentar decodificá-los (ela não vai ceder tão fácil, por mais que ela goste de você), você não me parece suficiente para namorar uma escritora. 
Se você não desenvolver uma capacidade peculiar de ler seus pensamentos e interpretar um gesto ou um trecho de uma crônica ou um poema, sinto dizer, mas você não pode namorar uma escritora. Aquele texto melancólico não é pra ser achado graça ou ser facilmente entendível ("ah, isso está relacionado ao que aconteceu há 3 minutos?"). É rude perguntar se o texto é sobre você. 
Se você não se importar em ter uma frase, um verso, um parágrafo, uma crônica, um conto ou um poema inspirados em você ou nos trejeitos seus, não seria avessa a acreditar que você possa namorar uma escritora. Mas nunca, nunca mesmo, pergunte se é sobre você. Os pensamentos de alguém que escreve não giram ao seu redor, por mais que você esteja ocupando um lugar especial em sua vida. Entenda que todas as pessoas ocupam lugares especiais porque são todos distintos, tanto as pessoas do passado quanto as que estão e virão. Então, da mesma forma que o texto pode ser sobre você, ele também é sobre nuances do dia, sobre o velhinho sentado na calçada da igreja, a menina que pediu um doce quando viu que você tinha dois, sobre o gato que decidiu adotar depois de muita relutância pela falta de tempo, sobre a falta de tempo que não a deixa escrever o quanto quer, sobre a música de alguma cantora de fado que ouviu semana passada e sobre várias e várias razões possíveis que se têm para escrever. Então, não, não é apenas sobre você. Mas se for, ela não vai te dizer. 
Ela precisa de solidão. Toda alma carregada precisa descarregar e se você entender isso, irá deixá-la estar em paz com o sossego que merece e necessita. Não é que ela não goste de sua companhia, mas ela precisa estar em companhia de si mesma e você precisa respeitar isso porque ela respeita sua necessidade de estar sempre em contato, por mais que ela não seja assim. Ela aprende a ser assim por você, anula a vontade de estar em paz consigo para atender aos anseios seus, então o mínimo que você pode fazer é entender que acima de suas necessidades há alguém para além de si desejando sentir afundo o que se está a sentir, mas em silêncio. 
Ela não é louca, é única. Ela não é calada (você já deve ter percebido que ela pode falar por horas sobre todos os assuntos, até sobre futebol americano - que ela nem conhece - porque ela é tão desenvolta que a conversa flui), é observadora. Ela sempre está te analisando, é inevitável, e se você não puder entender isso, não a namore.
Ela marcará sua vida de todas as formas possíveis. E ela pode até fi(n)car. Será que você pode?



continua.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

04:35

Hoje cedo eu acordei e o relógio marcava 04:35. Era tão cedo e incomum para mim que por um momento achei que o relógio estivesse errado, pela quarta vez em uma semana, mas desta vez não pensei tanto ao ponto de voltar a dormir. 
Hoje senti como um dia comum, menos acelerado para mim, mais devagar para os outros e carregado de uma energia amena que não sei de onde vem. A dificuldade para levantar da cama foi mais forte que em outros tempos, o desejo de continuar deitada não era um desejo, não é um desejo. Desejo implica vontade e nem vontade entendo mais o que é. Por obrigação é que se sai do lugar, física e mentalmente.

Não pude escrever por aquelas horas, faltou força. Não quis chamar alguém. As pessoas perguntam demais e esmagam qualquer vontade mínima de convívio que eu possa ter. Não entendo porque são assim, essa necessidade constante de se fazer presente na vida da outra pessoa como se quisessem fundir uma vez ou outra ou quase sempre. Soa inconveniente querer se apegar ao ponto de tornar-se uma outra pele, num corpo exaustivo mas, infelizmente, não exausto. Talvez, se exausto não tentasse tanto, como eu. Mas seria exigir demais, e basta o quanto me exijo toda hora do dia, todos os dias.

Levantei e, para meu contentamento, a casa estava vazia. Nada poderia ser tão gratificante naquele momento, tanto quanto está sendo agora. Nenhuma fome aponta quanto a de ontem após o dia inteiro. Que mal teria em pular uma ou duas refeições? Quem notaria? Certamente eu não o faria. Agora entenda, quem escreveria sabendo que não há retorno do papel? É aprisionamento de palavras, como me perguntaram outro dia? Não penso assim - respondi antes e mantenho o pensamento. De qualquer forma, não me vai fazer diferença agora. Tenha o seu dia da forma que achar melhor tê-lo! Ou menos pesado.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

quem, talvez, seja eu.

Intempestiva.
Tentei escrever um texto de introdução sobre quem sou eu. Esses textos de praxe para compor uma descrição qualquer no blog. Percebo o quão difícil essa atividade se torna.
Mas é bom começar pelo começo, como se diz, e o início é onde eu quiser. 

Dá pra dizer, e disso e apenas disso tenho certeza, de que se trata de uma multiplicidade - múltiplas mulheres, múltiplas meninas, múltiplas pessoas -, e não pretendo me submeter a qualquer crítica externa além desta intrínseca de que me alimento.
A capacidade de escrever muito me ajuda, como também atrapalha. Hoje, particularmente, não consegui parar de ouvir Killing Me Softly, na voz de Sinatra, e me encontro melodiosa e melancolicamente em distopia sobre o que se passa ao meu redor. Um eufemismo dizer melancólico alguém que escreve melancolia desde os oito anos de idade. 

Jamais saio desse estado de melancolia sobre a vida, sob a morte dos dias que me carregam instantes a dentro. Martírios internos, tormentos e dores passadas, presentes e futuras, não necessariamente nessa ordem, permeiam a existência que dizem minha. Não estou certa de que exalo sensatez e preciso me assegurar de que nunca terei essa certeza, uma vez que não me apetece a imutabilidade que ela traz. 



Decerto sou mutável e tento ser aqui o mais sincera possível. Mesmo com a canção que não consigo parar de ouvir ao fundo, tento ouvir meus pensamentos numa nitidez em que possa registrar e escrever ao mesmo tempo. Uma corrida inútil, eu sei. Manhãs, tardes e noites passam raspando em mim. Sinto, de leve, os raspões de vida que querem entrar nas frestas que ainda tenho. Mas é certo que as janelas fechadas durante os temporais que se fazem em mim não me permitem sentir muito mais do que o gosto metálico que me vem à boca quando a pele sangra mais do que suporto perder de mim, no pouco de vida que carrego pra sobreviver. 

Nem sei onde quero chegar escrevendo isso aqui e nem se chegarei a lugar algum.


Não tenho um poema preferido, nem uma música, nem uma comida, nem...
Não consigo imaginar que possa haver uma preferência a algo ou alguém quando há centenas de milhares de possibilidades de tudo ao mesmo tempo e sempre. A não ser que eu prefira agora Sinatra à Roberta Flack cantando a mesma canção. Talvez eu prefira Chet Baker logo após, tocando e cantando Almost Blue, em certeiros 8 minutos e depois disso preferirei a voz Milton ou o toque pesado dos dedos de Tom ao piano. 
Não tenho mais amigo imaginário. Uma tia me disse que tive. Não me recordo, então não posso afirmar alguma verdade por trás disso. Não é uma ciência de foguetes, afinal, mas se aproxima. 

Gostaria mesmo de poder dizer com clareza um pouco sobre mim. De fato não é fácil manter uma conversa saudável por muito tempo comigo, compreendo. Nem eu consigo, e quase sempre me calo. Narciso não entenderia.  
Quando mais nova achei que nascera na época errada. Ainda acho. Mentira. Mas certamente me encontro num estado de espírito (o que é isso?) ainda mais velho, não diria maduro. 

Sinto a energia do mundo muito forte, poderia dizer que corre em minhas veias e gera curto-circuitos em minha cabeça, mas é uma das consequências para quem quer apreender o todo como um todo sem partes. Holisticamente falando. Não aprecio algo em especial (embora a música me fascine incrível e absurdamente, de tal modo que, por muito tempo, só conseguia sobreviver um dia em completude se ouvisse pelo menos uma introdução qualquer, num "qualquer" não tão eclético), mas de tudo um pouco, numa sede infindável pelo todo que me cerca. E um cansaço infinito por tudo também. 

A vida social pacata exige uma imaginação tão fértil que não faça fazer a louca de uma vez e sumir por aí pregando estacas nos peitos das minhas multifaces e as enfiando em buracos cavados por mim. 

Não compreendo metade do que estou escrevendo, e compreendo pouco ou quase nada dos dias. Os pensamentos voam na velocidade da luz e a luz da vida efusiva me cega sempre que abro os olhos. Tudo que me cerca me faz querer manter os olhos fechados e sentir apenas a batida do meu coração, numa meditação chula e desprovida de aprofundamento espiritual, apenas pelo prazer de estar a sós comigo e as batidas do coração que habita - órgão tão falado e maculado por falsos e poetas. E quem sou eu para falar de falsos poetas? Ora, também o sou. Por isso mesmo. 

Alguém que não suporta mais assistir qualquer programa de tv e que ainda mantém certo vício em séries e filmes, novos ou antigos, desde que me façam sentir algo quando desafogadamente sinto nada. Preciso sentir! Necessariamente com exclamação. 


Por enquanto, trago isso e só. 
Trarei mais. Trarei mais. 
Logo mais.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

congresso da desfalência




Minha pele
não alcança minha alma
a lividez do sentimento
enobrece meu temor
e treme
palpita
espanca
sigo
louca
desvairada
voando pela terra
rasgando o peito
desfalecendo sonhos descabidos
morrendo na eternidade de uma hora
sobrevivendo nessa ínfima realidade
que maldade!
preserve a inocência
desde a adolescência
até a juventude!
amiúde
apesar do final
alhures
farfalhe as folhas da vida
e queime no fogo de estar viva
vivendo.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

aos que não pensam na vida





Os que pensam pouco na vida vivem mais felizes. Eles não quebram cabeça com questões que tiram o sono, eles dormem bem.
Eles viajam e conversam e cantam. Eles ouvem músicas sem pensar no que o compositor sentia quando escreveu, ou sem imaginar mil histórias vividas ou não para a mesma canção. Eles assistem a filmes dos anos 70 ou 80 e não ficam com cara de bobos ou voltam inúmeras vezes a mesma cena para ouvir de novo o diálogo que mexeu com suas estruturas mentais. Eles não veem tantos filmes dos anos 70 e 80. Eles não ficam entre mil amores tentando entender qual deles correspondem ao descrito por Bauman em Amor Líquido, porque os que não vivem pensando na vida simplesmente seguem o instinto. 
Eles não escrevem e por isso não se martirizam se não escreveram logo aquela estória ou registraram aquela ideia, porque simplesmente eles não a pensaram. Eles não perdem tempo com isso e são mais felizes. 
Eles não passam o tempo decidindo o que é certo e errado ou se essa dicotomia de fato existe, eles não gastam bom tempo de vida a pensar nisso. Eles têm coisas mais importantes para fazer do que pensar em questões que provavelmente não irão resolver. 
Eles agem por impulso. Não passam maior parte do tempo de vida pensando no que fazer, no como fazer, no porquê fazer, no dever fazer. Eles não se pressionam e se impressionam tão fácil. 
Acho que descobri a receita para ser um tanto mais feliz: não pensar tanto. E no entanto, é uma receita que não pretendo seguir.
© da estante
Maira Gall